terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Você tem culpa de quê?

Parece que toda escolha vem com um bônus: a culpa.

A culpa é filha do bem e do mal. Criada, desde pequena, pela moral. Mimada, ela se instala na nossa casa e lá fica, dando pitaco em tudo. A gente não percebe, mas presta uma atenção danada ao que ela diz. Porém, a culpa, tirando crime e acidente de trânsito, não está a serviço de ninguém. Ela é um desserviço contra todos nós.

A culpa por trabalhar muito. Por trabalhar pouco. Por não trabalhar. Por ter casado cedo, por ter casado tarde. Por amar demais. De menos. Por ter ido. Por ter ficado.

Culpa pela traição imaginada, pela efetiva e pela que sequer se deixou virar ideia. Culpa por acordar tarde. Por ter dito não. Por ter dito sim. Por não ter dito nada e ficado na mesma. Por ter dito muito e estragado tudo.

Culpa por ter cuidado da carreira em vez dos filhos. Culpa pelo vice-versa. Ou por não ter escolhido nem uma coisa nem outra, já que as duas pareceram desinteressantes. Culpa pelo cansaço do corpo, que não encara mais nenhuma vontade da cabeça. E pela fadiga da cabeça, que não acompanha o resto do corpo.

Culpa por não rezar. Por não fazer ginástica. Por ler menos do que gostaria. Por não gostar de ler. Pelo trigésimo par de sapatos no armário em vez da consulta no dentista. Pela indisciplina, pela bagunça. Pelo prazer de um vinho fora de hora. E por não saber que horas são.

Tem mais. Culpa por não telefonar para os amigos. Por esquecer o aniversário do pai. Culpa pelo ócio fundamental. Por topar um trabalho pelo dinheiro, sem prazer. Ou por aceitá-lo por prazer, sem pensar na grana. Culpa por tolerar a insatisfação, por denunciá-la ou até por senti-la. Culpa pela sobremesa, pela mesa inteira. Pelo sono diurno e pela insônia noturna. A culpa, simplesmente por se sentir culpada.

Desculpas à parte, o negócio é o seguinte: hora de parar com a síndrome da crucificação. Já basta aquele moço. Que, aliás, não tinha culpa no cartório.


Disponível aqui ó.

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